sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Salada, mistura – o trivial

“E pelo jeito que estou vendo agora lascou”. Saio - na hora do almoço eu não passo. Eu não me passo. E ao passo do passado passo ou passarinho de vez quem sabe me transformo e vôo. Uma música da Zizi Possi no mp3 equivale certinho a um cigarro. Penso: comprarei um livro por luxo sem expectativa de leitura. Catatônica, paro muito tempo sem parar. Passa tanta coisa com lindas roupas de nada com seda e badulaques. A Sapucaí mental: cinqüenta e quatro minutos de desfile. Meu samba não evolui, não termina, não tem cadencia. Continuo. Depois passo na loja de umbanda, compro uns incensos com os santos que respeito. Peço licença pra tudo, até pra respirar. Sinto crescer e murchar: sístole e diástole, sístole e diástole, sístole, sístole diástole – arritmia. Falta cadencia de novo. Entro na lotérica “Gato”. Um moço bonito, um gato branco no balcão de atendente. Queria que fosse gata se já não é. Pago a tal da conta e já nem conto o dinheiro pra não ficar irritada. Sou ser humano mesquinho pô! e meio de mês tô sem grana também. Copacabana Mon Amour – vem Gil gostoso! Decido comprar um acarajé em São Paulo de uma baiana importada. Dendê neguinha, dendê! Dois reais – não tem preço. Rio. De vibe, vibrations e lembranças – memories! E daquelas coisas nas ruas de Londres e eu Caio. Farei uma festa pra ele no seu aniversário de morte este mês. Foi pacto num beco. De sangue. Ele estava doente e nesse dia eu também fiquei. Combinamos de morrer juntos no mesmo dia e segundo. Mas não deu certo. Ele foi antes. Mas o pacto ficou e visitarei o beco no fim deste ano quando juntar o dinheiro do avião. - Baiano burro garanto que nasce morto – ele cantava na Bahia e ria afetado como sempre. Fui pra praça sentar e pegar o soldahoradoalmoço. Me come por dentro. Outro cigarro só faltava não. Passo na banca da Suzinha. Encho o saco e tomo um sorvete. Outro cigarro? Dizem que é ansiedade de alma. Tenho que fazer um mapa de folha vegetal do coração com suas coronárias e pulmonares. Farei um bem bonito. Pintarei de escuro e obstruirei as veias e colocarei o desenho num vidro de formol com o numero do meu cpf. E falar em coração eu vi um morto. Ele lá deitado na mesa com a sua morte. Me espantou a cara de vivo que ele tinha. Eu nunca tinha visto gente assim tão morta. Minha mãe nunca deixou eu ir a enterro, velório. O primeiro que eu vi foi assim desconhecido mesmo. Entrei e deixei a minha subjetividade lá fora do laboratório. Encarei apenas uma vez e com detalhes. O professor passou o coração de um gordo e de um magro numa bandeja de formol e pra mim só faltou a cerveja. E nem eu que não sou chegada tanto ao álcool, depois de tanto formol, coração e sentada naquela mesa fria me deu uma vontade estranha de mesa de bar. Lembrei também de Antony Hopkins e seu canibalismo e lógico a linda Judie Foster de Clarisse. Me intrigou depois a vida. E se eu ficasse em exposição numa banheira de formol para que eles – os vivos - apreciassem o meu corpo, visse o além de mim e minhas entranhas? Eu com certeza ficaria na mente dos mais impressionados e alucinaria seu psiquismo e os assombrariam em suas camas. Morbidez a parte. Poderia eu falar repentinamente sobre o nada, descrevê-lo e até interpretá-lo. Me passa o nada na cabeça digo e relato. Chego – acabou e passou e eu não passo: sou passarinho de novo e desligo o mp3.

3 comentários:

Thalita disse...

Oi Isa...passando só pra dizer q adorei este texto...
...como sempre, da sua maneira, única, muitas idéias, expressões e sentimentos foram trascritos nesse texto...

...parabéns viu!!!(mas não é pra ficar se achando tah)

...bjs!!!

susan disse...

meuuuu muita honra ver meu nome aki nesse bloggg! Isa tu é foda adoro teus textosss !!! bjusssss e passe na banca da suzinhaaa sempreeee

Silvião Côrtes - Poesia e Insanidade disse...

E ela estava lá, deitada naquela banheira de formol com aquelas lindas, enormes e roliças coxas à mostra, assim como seu sexo e sua alma. Eu, só um gurizinho de escola numa excursão macabra pra ver os mortos. Me apaixonei por um corpo inerte, moreno e de seios pequenos, que andava nas antigas entre os bares sacanas, beijando outras mulheres e rindo alto com os rapazes, fumando um cigarro fino e suando contra corpos aleatórios. No meio da noite eu acordo e vejo ela se aproximando como poesia e como música, uma canção em trash e Wagner. Aqueles livros da estante já não me dizem se Lobato amava Nietsche ou vice versa. Se Jesus ou se José, se era ela ou se era eu. Só mesmo aqueles pequenos seios me velando o sono enquanto meus sonhos me moleque se gastam na boca das moças da rua. E um sorriso afinal, é só mais um copo daquele formol, que deve conservar na minha memória, aquele corpo, que nada mais cantava, que não a alma de uma mulher fria, que sorria dentro da banheira de inox.

Minha princesa da poesia, o link do seu blog já foi atualizado no meu, parabéns, a cada dia amo mais a sua insanidade. Grande beijo.

do poeta, louco, perdido e amigo - Silvião
http://silviao.cortes.zip.net
ps: gostei desse comente, vou postar como texto no meu blog